segunda-feira, 27 de junho de 2011

Welcome Winter with Hot Cocoa!

A cozinha é o espaço da casa que mais gosto depois da cama. Adoro cozinhar, criar receitas próprias, adaptar receitas alheias... Poucas coisas me fazem tão bem quanto ver o sorriso de satisfação das pessoas que amo ao provar algo que eu mesma preparei, sempre com carinho e capricho.

O blog, espaço do qual também gosto bastante, sempre foi uma espécie de consultório sentimental; uma válvula de escape para desabafos, recados subliminares, comemorações. Mas, em mais de um ano de vida do Pecado... , nunca escrevi um post compartilhando uma receita da qual tenha gostado muito.

Assim, para marcar a chegada definitiva do inverno, no primeiro dia de frio desumano, com direito a ventos perturbadores em Porto Alegre, decidi publicar aqui uma receita muito simples que coloquei em prática hoje e fez muito sucesso: chocolate quente. Aquele, cremoso e gostoso, que esquenta e adoça até as almas mais gélidas. 

Lá vai:

Ingredientes
2 xícaras de leite
3 colheres de sopa de chocolate em pó (aquele dos frades... nada Nescau, Toddy ou assemelhados)
4 colheres de sopa de açúcar
1 colher de sopa de Maizena
1 caixinha de creme de leite

Modo de Preparo
No liquidificador, bata o leite, o chocolate em pó, o açúcar e a Maizena.
Leve ao fogo baixo, mexendo sempre, até ficar bem quente.
Antes de ferver, acrescente o creme de leite e siga mexendo até ficar bem cremoso.

Fica uma delícia com chantilly ou, como eu prefiro, apenas umas bolinhas de marshmellow...

E não é que o inverno nem parece tão ruim assim?

Welcome, Mr. Winter!



segunda-feira, 13 de junho de 2011

123 anos do Grande Fingidor




Depois de um alguns dias impregnados de Fernando Pessoa, antes de outros que estão por vir com meus queridos alunos da 8ªB do Guanella, deixo aqui minha homenagem ao poeta português, mestre infinito como o mar infinito. O meu favorito entre os mestres infinitos.

Aí vai uma seleção de trechos de um belo e longo poema, que, de certa maneira, explica um pouco da multiplicidade de personalidades que encontramos em sua obra. Momento de prazer estético inenarrável. Sem mais delongas, voilà.


PASSAGEM DAS HORAS
 
(Álvaro de Campos)

Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

(...)

Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,
Consangüinidade com o mistério das coisas, choque
Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz.

(...)

Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo,
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco - não sei qual - e eu sofri. 
Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos, 
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse. 
Amei e odiei como toda gente,
Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo,
E para mim foi sempre a exceção, o choque, a válvula, o espasmo.

(...)

Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.

(...)

Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,
Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,
Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia, 
Seja uma flor ou uma idéia abstrata,
Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus. 
E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.
São-me simpáticos os homens superiores porque são superiores,
E são-me simpáticos os homens inferiores porque são superiores também,
Porque ser inferior é diferente de ser superior,
E por isso é uma superioridade a certos momentos de visão.
Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de caráter,
E simpatizo com outros pela sua falta dessas qualidades,
E com outros ainda simpatizo por simpatizar com eles,
E há momentos absolutamente orgânicos em que esses são todos os homens.

(...)

Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-me,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.

(...)

Sentir tudo de todas as maneiras,
Ter todas as opiniões,
Ser sincero contradizendo-se a cada minuto,
Desagradar a si próprio pela plena liberalidade de espírito,
E amar as coisas como Deus. (...)

quarta-feira, 8 de junho de 2011

E quem um dia irá dizer...

... que existe razão nas coisas feitas pelo coração?




E quem irá dizer que não existe razão?

A eterna contradição humana!

Há 4, 5 meses atrás, aqui na grande Porto Alegre, o assunto que surgia nos momentos em que não se tinha mais assuntos relevantes era o calor. "Meu Deus, que calor é esse?"; "Esta cidade é um inferno! Quero me mudar para o Pólo Norte!" De fato, o verão por aqui é desumano. Para quem é obrigado a permanecer na cidade, sem poder dar aquela escapada para o litoral, é difícil suportar as temperaturas escaldantes. E o jeito é apelar para o ar condicionado de casa, do supermercado, do shopping... Acordamos pela manhã já suados; tomamos um banho para refrescar e parece inútil. Chegamos ao fim do dia esgotados. O calor cansa.  Mas aquela cerveja gelada no barzinho com mesas na calçada compensa.

Hoje, no início de junho, o inverno nem começou oficialmente, e o frio já está intenso. E agora os tópicos de "small talk" por aqui são "Que frio!"; "Que saudade do verão!"; "Vou me mudar para o Nordeste!". Acordar cedo é uma tortura. Gripes, resfriados, dores de garganta nos derrubam várias vezes ao mês. Para manter o corpo aquecido, café, chocolate quente, vinho tinto, massas, sopas... E, no fim das contas, a gastronomia de inverno é uma delícia. O frio também colabora com a nossa aparência: a maquiagem não derrete; a chapinha não é arruinada pelo suor; casacos, botas, cachecóis deixam as mulheres mais elegantes.

O inverno é a estação da elegância, assim como o verão é a estação da descontração. Cada uma com seus encantos e, é claro, seus desencantos. Devo confessar, que, curitibana de nascimento e de coração, sou muito mais acostumada às temperaturas glaciais do que ao calor sertanejo. Logo, me sinto, de verdade, no mármore do inferno em Porto Alegre, de dezembro a março, mais ou  menos. No inverno, me sinto em casa, por mais que sofra para acordar cedo e seja pega de surpresa por gripes com muita frequência. Ainda assim, tenho feito o exercício de tentar aproveitar as delícias e não me aborrecer com os incômodos de cada época ou qualquer outro aspecto da minha vida.

O interessante é observar o quanto as pessoas são insatisfeitas com tudo que as cerca. Quando está frio, querem calor. Quando está calor, querem frio. Se chove, tem muita umidade; se não chove, é muito seco. Se estão casados, querem ficar solteiros; os solteiros, querem se casar. Se moram no Brasil, sonham em ir para o exterior; os "exilados" só desejam voltar para casa. A lista de antíteses é infinita. 

Por que será que é tão difícil aproveitar o lado bom de cada coisa? Para responder a essa pergunta, só me ocorre citar Machado de Assis: é a eterna contradição humana!

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Tempo

Na mitologia grega, Cronos era o mais jovem da segunda geração dos Titãs, filho de Urano - o Céu estrelado -  e Gaia, a Terra. Tornou-se senhor do Céu castrando o próprio pai à foice, a pedido da mãe. Casou-se com a própria irmã e com ela teve seis filhos, entre eles o famoso Zeus. Com medo de perder seu trono, engoliu um por um de seus filhos, com exceção de Zeus, que no fim das contas consegue se livrar do pai com o apoio de Métis - a Prudência, tornando-se, assim, senhor do Céu. 

Assim como o titã grego, o Tempo é uma divindade suprema. Ele pode nos engolir, mas também pode nos ensinar lições impagáveis.

Driblando sua "fome", aprendemos a encarar a vida com serenidade e, por que não dizer, prudência. Nos momentos mais difíceis, é a serenidade que nos mantém firmes, com a cabeça no lugar e os pés no chão, evitando o desespero e o caos.

A sabedoria popular diz que o tempo é o melhor dos remédios. As pessoas, hoje, se lamentam constantemente pela falta dele. Acredito que o problema da humanidade não é falta de tempo, mas sim dificuldade, até mesmo incapacidade, de lidar com ele. É preciso aceitar a passagem do tempo e tudo que vem com ela. O tempo nos traz dor, mas também traz alívio; nos traz angústia, mas também nos possibilita refletir e mudar atitudes.

Sendo filho do Céu e da Terra, o Tempo pode nos tirar do chão ou nos manter completamente seguros, inabaláveis. Como qualquer remédio, só será o melhor se for aceito e, acima de tudo, bem administrado, para que possamos encontrar serenidade e equilíbrio.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

De petelecos, flores e amores

Às vezes o acaso nos pega de surpresa e nos deixa sem reação. Então, experimentamos um misto de sensações tão confusas e contraditórias que temos vontade de jogar tudo para o alto; chutar o balde mesmo.

Com o tempo, aprendemos que nessas situações o melhor é usar a velha tática de "respirar-fundo-e-contar-até-um-milhão" antes de tomar qualquer atitude. Em geral, respostas impensadas a acontecimentos aparentemente sem explicação resultam em precipitação e, posteriormente, arrependimento. 

A verdade é que essas pequenas (ou grandes...) surpresas, por mais desagradáveis que sejam, são petelecos que a vida dá na nossa orelha, bem de cantinho, para ninguém ver, com a intenção de nos manter atentos. Não no sentido de colocar uma pulga atrás da orelha, de maneira que a desconfiança e a insegurança prevaleçam sobre qualquer outro sentimento (Elvis já dizia: "We can't go on together with suspicious minds..."); mas de nos mostrar que não temos domínio completo sobre as coisas e, principalmente, sobre as pessoas que fazem parte da nossa vida. 

Ainda bem que não temos! Só assim aprendemos a valorizar o que conquistamos,  a amar quem nos ama, a cuidar de quem amamos. 

A metáfora da flor é um clichê muito explorado no cotidiano e na arte, mas a ideia de que o amor é como uma florzinha faz todo o sentido. A delicadeza de uma flor que precisa ser banhada por água e sol na medida certa e que, por vezes, é machucada pelo vento é facilmente comparável ao sentimento que chamamos de amor. Assim, não podemos impedir que o vento balance a flor, mas podemos protegê-la para que ele não a machuque de forma irreversível. E é, também, com delicadeza que devemos banhá-la de água e sol para que a flor se mantenha viva e colorida pelo maior tempo possível. A única diferença é que, por maior que seja o cuidado, a flor, normalmente, tem vida curta; o amor, por sua vez, se bem cuidado, não acaba nunca. Sim, eu acredito nisso.

Amar não é apenas reproduzir em alto e bom som a frase EU TE AMO. Amar é estar presente no dia-a-dia do outro, e, muito mais do que admirar as qualidades  - convenhamos, a coisa mais fácil do mundo é admirar as qualidades de alguém, é aceitar que nem sempre os desejos, as vontades e as curiosidades da pessoa que amamos é algo que nos faria feliz. Respeitados os limites do bom senso, da fidelidade, da lealdade e da confiança, não há razões para tempestades em copos d'água. 

Dessa forma, penso que a melhor maneira de encarar os petelecos da vida não é responder a eles com agressividade, mas sim encará-los como algo positivo; como oportunidades de conversar e esclarecer possíveis dúvidas ou angústias e, assim, fortalecer o sentimento que existe. Os ventos que balançam as flores podem sim ser apenas brisas que as movimentam suavemente, produzindo, no final das contas, um belo espetáculo da natureza. 

E o que seria a felicidade? A capacidade de aprender com as próprias experiências; de encarar a vida e suas vicissitudes com serenidade; de amar e ser amado, sem criar obstáculos desnecessários; de compreender que as pessoas que amamos não são projeções dos nossos próprios desejos, mas nem por isso são menos dignas de admiração e respeito; de ver a flor que cultivamos com dedicação e apreço crescer forte e bela dia a dia...? São infinitas as possibilidades de resposta a essa pergunta. Pode ser apenas uma, ou todas essas, e muitas outras mais. Não importa.

O que importa é perceber que, se por alguns instantes perdemos nosso chão, é para que possamos parar e refletir sobre as bases desse chão que só depende de nós mesmos para nos manter em pé, firmes.